DEPOIS DO ESCULACHO, O AFAGO…

Bem que nós dissemos que o vexame pelo qual os carecas passaram na micareta convocada pela Rede Globo no 15 de março era só um puxão de orelha para que não se esquecessem do lugar subalterno que devem ocupar na sociedade de classes. De resto, a relação deles com os setores “respeitáveis” da chamada oposição de direita seguia mais forte que nunca. Pois não demorou muito para que depois do esculacho público os patrões tratassem de adoçar a boca dos ganguistas, dando a eles um programa de televisão inteiro para mostrar à cidade e ao mundo como os carecas do subúrbio são gente de bem.

Foi domingo passado, no programa Conexão Repórter do SBT, conduzido por Roberto Cabrini, que exatamente os mesmos fascistas que levaram o enquadro na micareta da Avenida Paulista ganharam espaço para explicar que defendem a família, são contra as drogas e incentivam a prática de esportes. E também que não são homofóbicos, são apenas contra homossexuais. O contraponto – sim, porque Roberto Cabrini é um jornalista sério e também ouve “o outro lado”, claro – foi feito por uns poucos punx mal articulados e sem direito de resposta, dizendo que usam todo tipo de droga e são contra a polícia. Os assassinatos e agressões gratuitas praticados pelos carecas nesses anos todos passaram para segundo plano. Enfim, foi todo um programa claramente destinado a mostrar que os ganguistas fachos não são tão maus como dizem por aí e que no fundo eles até prestam um serviço à sociedade, à “gente de bem”. Um trabalho digno da emissora que foi um presente do general Figueiredo ao seu fiel servidor Sílvio Santos e que mais recentemente foi a responsável por dar voz em rede nacional a uma figura abominável como Rachel Sheherazade.

Por muito tempo as gangues nazifascistas de São Paulo só eram notícia quando praticavam seus crimes na calada da noite. E invariavelmente seus membros eram caracterizados como desajustados sociais tanto pela grande imprensa quanto por pesquisadores que se autoproclamavam “especialistas” no tema. Nós sempre nos opusemos a este tipo de caracterização por acreditarmos que esta criava uma cortina de fumaça que ocultava uma ampla rede de vinculações que permitia que os crimes fossem praticados e permanecessem impunes. Não deixava de ser curioso que os apresentadores fascistoides dos programas policiais que infestam as tardes na televisão aberta descrevessem os membros das gangues nazifascistas como psicopatas insanos quando um olhar mais atento revelava que todos – apresentadores e ganguistas – compartilhavam dos mesmos valores reacionários.

Mas grandes mudanças vêm acontecendo no país. Como já disseram, a direita perdeu a vergonha. O avanço da direita parlamentar, com suas bancadas da bala e da bíblia, e a superexposição de seus representantes pela mídia, contribuiu muito para que as gangues nazifascistas passassem a se exibir publicamente como defensores de valores políticos legítimos. Mais que isso, a partir da fase final das chamadas jornadas de junho de 2013, as gangues de carecas e wp passaram a atuar como tropas de assalto da chamada “oposição de direita” nas manifestações de rua. Era de se estranhar que com tantos serviços prestados pelas gangues nazifascistas à direita “respeitável”, elas ainda estivessem sendo apresentadas com uma imagem negativa pela mídia, ainda mais se considerarmos o papel mais que ativo que a televisão vem tendo na atual onda reacionária que assola o país.

O Conexão Repórter do último domingo foi apenas um desdobramento lógico do estreitamento das relações entre as gangues de rua nazifascistas com setores políticos mais “respeitáveis” interessados no retrocesso político. Podemos esperar que daqui em diante essas gangues passem a ser tratadas de uma forma muito mais carinhosa pela imprensa burguesa, afinal estão do mesmo lado e compartilham dos mesmos valores. Que compartilhem também a responsabilidade por cada novo crime praticado por carecas e wp nas ruas de São Paulo.

Tutti buona gente!

Tutti buona gente!

Em tempo: A página São Paulo FC – Antifascista publicou uma nota de repúdio ao programa Conexão Repórter, que gostaríamos de recomendar aqui, pois expõe muito bem o desserviço e irresponsabilidade deste programa.

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